90. Os doces vícios do nosso coração

O ser humano é um rematado patético. E, uma vez movido por paixões, ele mata, morre e se suicida a cada segundo pelos mais comezinhos eventos, seja um prato a mais de comida, um punhado de pó ou a atenção do outro.

O outro não é exatamente um problema, no sentido negativo, de algo ruim, mas se apresenta como um algo a ser, senão desvendado, percebido: não se pode interagir sem alguma forma de sentimento do que seja o outro, nem que seja uma projeção vadia e mal cuidada. Projetar, esperar, planejar são verbos aproximados de um fracasso constante, mas que obtêm seu sucesso no próprio existir, uma vez que, de alguma maneira, a ação já traz, embutida em si, aquela projeção anterior.

O truque do tempo é nos fazer crer que ele é um algo substancial e tangível. Como alguém já disse melhor do que eu, o presente é este contínuo que passa à medida em que vivemos, mas que carrega toda a ideia (que resta) do passado, os resquícios e as cinzas do que já foi e também traz sementes do que está para ser. Não se pode falar do tempo sem quebrar algumas peças de nossa cabeça, não se pode viver no tempo sem alguma forma de flutuação. Suspendo a descrença no fim, por isso vivo.

E viver é sempre uma forma de aturar e lidar com nossos piores sentidos, defeitos, mal-feitos, na busca (insensata?) por alguma ordem, alguma forma de sentido que possa nos tocar o coração. O coração corre e salta, selvagem, solto, (quase nunca) são, em voltas atrás do que já nem se sabe o que é. À procura de sentido, o grito nunca é oco, quando se acha um ouvido por aí.

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Afresco do Palácio de Cnossos, Grécia. Tirado daqui.

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89. Quanto ao fogo

i. A ideia da brisa é facilitar a combustão, de maneira que o brilho da faísca possa até gritar.

ii. Qual o raio do sol que pode ser medido à luz da transparência, como um verdadeiro e novo tempo a se inaugurar?

iii. Sempre que se pensa no medo, é possível tremer pelo fim.

iv. Mas há temor que possa existir na coragem?

v. A valentia é uma imagem, um símbolo, uma disposição de caráter e uma natureza.

vi. Pode-se desenvolver a bravura como se faz criar o amor?

vii. A maior busca (e como tudo que é grande, soa insensato) está na investigação e na conquista sobre o que há no (sob o) coração dos vivos.

 

 

88. Aquele que ama morre

Leio no jornal que, supostamente, os adolescentes e as crianças estariam cada vez mais entediados, sem engajamento em propósito algum e sem convicção nos projetos pensados por seus pais para eles, daí a busca por formas, digamos, desagregadoras da vida, ou seja,  o de sempre: drogas, sexo, asfixia e um certo descuido com o bafo frágil que nos alimenta.

Jornalismo é uma bela maneira de ver coisas velhas sob formas e lentes novas, alguém mal humorado poderia murmurar. Ou, de modo atualizado, podemos  pensar que jornalismo é um jeito de chamar a atenção para nosso monótono barulho cotidiano, embora cada vez mais com o risco avassalador do mofo. Mas não é disso que eu queria falar.

De alguma forma, o niilismo apresenta-se como o perfeito verso de seu irmão de luz, a esperança, esta mãe da potência humana. A rigor, me atrapalho na relação de parentesco, pois o desespero, o desapego diante de tudo quanto mais vital é ele mesmo filho da esperança, na medida em que surge diante da frustração (real ou simulada) das melhores expectativas.

“Esperar demais é o caminho para o vazio”, tenho isto escrito na parede do quarto, como num mantra pop-budista que li e carrego como lição. Ali, a espera atua como espaço da inação, embora possa iludir sob o manto do planejamento e da meticulosidade, ainda que o fazer não seja o caminho garantido da plenitude. Pode-se arriscar, porém, uma relação além da etimologia, entre aguardar, seu oposto (a ação) e a confiança numa possibilidade melhor.

Ora, aquele que confia e deposita fé em algo é alguém que põe sua alma em risco, conquanto nem sempre arrisque sua existência física. Esperança em uma meta de vida, em uma pessoa, em uma ideologia, em um sentimento significa o comprometimento de um plano mental em que a própria identidade do sujeito parece fadada ao sucesso ou ao insucesso de acordo com as circunstâncias acontecidas com o próprio “objeto da expectativa”. E é neste sentido que sua ruína pode significar, dentre outras tantas quebras, falências e derrocadas, a decadência do próprio existir.

Em nossos tempos, a juventude é o sinônimo por excelência da potência. Por pior que seja uma criança, um adolescente, ele conta com um crédito absurdo diante da comunidade humana: o futuro. Ao lado desta potência de ser, há o viço do corpo, que pode ser traduzido na força e no comportamento temerário tão associado à vida jovem, de modo que, a rigor, nunca se sabe o que sairá dali e desta incerteza, talvez, retire-se a verdadeira obsessão que o Ocidente desenvolveu diante da figura do jovem.

Todavia, ” a quem tudo se dá, muito se exige”. Ao confiar todo seu motor na figura maior do “jovem”, a expectativa média da sociedade demanda tarefas impossíveis e, como num perfeito ciclo de tragédia, o próprio demandado pensa ser imprescindível que ele desempenhe um papel previamente determinado. Nem sempre é possível ser a mula do sonho alheio, e aí está anotada a receita do vazio.

Ao caminhar num fio de navalha, ao invés de ter o mundo, é possível perder o seu próprio, caindo numa síndrome da falha, que é o niilismo. A descrença geral e absoluta é um reverso da expectativa maior, na medida em que a hipótese falhada redunda não em novas teses, mas no desmonte particular de cada um.

E assim, o poço de nada é um tiro na cara de quem quis muito. Existe o risco da queda para os que têm o fervor no coração e estar atento sem nunca abrandar a chama é uma missão de vida e queira Deus nos conceder esta Fortuna sempre.

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Imagem de “Blade, a Lâmina do Imortal” (,”Mugen no Jünin”, i.e., “Habitante do Infinito”, segundo a wikipedia.pt) de Hiroaki Samura. 

 

 

87. O vilão interior

Engraçado como boa parte das conversas marcantes ou proveitosas surgem inesperadamente, sem um momento. Um destaque, uma piscadela,  uma oportunidade propícia e, de repente, sem qualquer planejamento, está-se ali discutindo o sentido de algo. E o problema do sentido é o que move nossa existência, por mais que não tratemos sobre, afinal, somente é na falta que se percebe a necessidade de algo. Não à toa, há quem diga que só pessoas em desajuste ou desconjuntadas falem de sentido, pois aqueles que efetivamente vivem não estão preocupados com a razão e o estado de ser das coisas.

Mas eu falava de conversas que se prolongam no tempo e um bom diálogo talvez seja algo próximo do infinito. O sujeito pisa e repisa os argumentos, os contra-argumentos, repensa o que disse, constrói novas palavras, supõe abordagens antes impensadas, de modo que sempre a conversa volta, impávida e fresca. Se não tão fresca, viva.

E foi numa dessas em que se falava dos papeis de aluno e de professor e em como essa relação, tão tensa, tão nobre, tão forte, como poucas na vida, são assumidas de lado a lado. Conte-se o milagre, mas se omita o nome do santo. Não é preciso identificar nada para chegar ao que quero dizer. Pois bem, enquanto falávamos sobre isto, pensávamos sobre intenções manipuladoras de parte a parte. O amigo demorava em encarar uma dura realidade, a que resisto tantas vezes: assim como somos sós no mundo, somos muitos e em diversos momentos, agimos sob a tirania da vilania.

É sempre difícil entender que eventualmente o erro, a ação imoral, o signo do ruim possa estar em nosso viver, em nosso fazer e não no do outro. E a esta constatação, longe de qualquer contentamento cínico, deve seguir a força e a vontade de tomá-la pela face, aprumar o rumo e pensar na importância de diminuir nosso ego, tão traiçoeiro.

Já se advertiu tantas vezes sobre o risco da vaidade e sobre seu caráter insidioso: manifesta-se em autopiedade, em nossa complacência com problemas que não são do outro, mas nossos, e mesmo em excessos de deferência e carinho para o que não deve ser. A vaidade pode ainda ser cruel quando nos impele à inércia, à tristeza, por achar que não há falha na fraqueza.

Reconhecer que o erro existe, compreendê-lo e partir a alguma forma de reparo não significa eliminar nossa natureza duvidosa. Pensar que podemos ser o pior é a maneira mais próxima e ligeira de nos aproximarmos do acerto.

Não há garantias, a vida é tirana. Assusta, mas é pura beleza, quando dá para ser.

86. Síndrome de Tom Zé

A vaidade é o mal que devora nossas consciências. A cada dia, consumidos pelo desejo de sermos vistos, bem tratados, queridos, respeitados, lembrados, amados, mitificados, submetemo-nos a humilhações indizíveis ou corremos ensandecidos rumo ao outro. Entre tantos pecados graves (e parece que há ao menos uma dezena de sete pecados capitais), a vaidade se destaca como um pecado voltado ao desejo, ou melhor, à falta do outro, sendo um vício da carência, do desespero, da falta – talvez de amor, sobretudo próprio.

E, no entanto, este é o pecado que abunda em mim, em quem me lê e em quem não me lê (ou seja, em ninguém e em todo mundo). Uma vez, o mestre disse que vivíamos num “mundo sem amor” e que se matava e morria sem sentido, num aumento convulsivo de nossa vivência terrena. Diante da secura, muitas vezes nossa saída, digo, fuga, é o colo imaginário.

Sujeitos desesperados não são os melhores conselheiros, nem tampouco os melhores agentes e quando se trata de filhotes metafóricos, certamente a escolha é quase trágica: o risco do colo ser uma queda é um problema e talvez isto explique certa atração pelo abismo e pelo iceberg. O vazio do mundo nos fascina porque parece espelhar a aspereza interior.

De vaidade em vaidade, a maior de todas é a da seriedade. É difícil evitar o esquecimento da lição da pluma e não se deixar devorar pela vontade de ser levado a sério. No campo, no mundo, na vida, não ansiar por alguma plateia, nem que seja do interlocutor individual, não desejar a atenção do outro pela vida, é uma missão hercúlea. Do mesmo modo, receber risadas quando se pretende falar algo com imensa gravidade ou rostos impassivos quando se busca brincar é um teste de esforço e resistência para egos inflamados. E é difícil não pensar naquele que possivelmente é um dos maiores homens de Irará, Tom Zé.

Sem maiores controvérsias quanto à sua música. Em geral, há quem odeie, há quem ame e até aí é parte do jogo, do riscado do dia a dia, pois, até onde se sabe, nem com a morte trágica se alcança a unanimidade. Leituras estéticas denunciam mais a respeito dos leitores do que propriamente dos objetos e isto geralmente tem a ver com a falta de abertura, de senso de proporção e da sobrestimação de nossos gostos particulares, nada mais do que a inflamação egoística típica de nosso agora.

Percebo um grande choque na imagem geral que há na recepção do que Tom Zé fala. Ele é visto como “maluquinho”, “porra louca” e dificilmente tenta-se entender sua proposta estética (inclusive com as ruínas que a integram, que às vezes são imagens de nossa aridez espiritual). No máximo, boa parte do público universitário e de esquerda que o abraçou, considera apropriadas suas opiniões e afirmações políticas (em regra, quando se concorda), numa afirmação de identidade de conteúdo que parece estragar a própria mensagem da arte.

Como uma resposta a tudo isso, pode-se levantar a já mencionada antes “Complexo de Épico”, visto que é na superação do vício que poderia residir a cura. No entanto, de vez em quando, ultrapassar o fardo parece uma atividade fadada ao fracasso, um trabalho de Sísifo, pois a ideia do outro como um necessário permanece e esta noção mal regulada torna-se um disparate.

Uma hipótese: entender que se está só (e ignorar as multidões de consciências, julgamentos e expectativas ao redor) é a direção para poder caminhar junto (e mais forte, ai de nós, amém).

“Cesta de Frutas”, de Balthasar van der Arst (c. 1625). Fica no Museu Britânico e eu roubei esta imagem daqui.

85. O lado escuro da lua, o lado morto do sol

A história do mistério é um grande problema e uma solução para muitas questões. Não que se possa saber tanto, de modo claro e verdadeiro, sobre um objeto tão secreto, mas sempre é possível cavar e pescar. Boa parte da vida é um mergulho em alguma forma de mistério e segredo que teima em nos desafiar – e desafiá-los nem sempre é um bom negócio, ainda que pareça a única saída.

Eu falava de solução, e essa parece evidente. Afinal, desde um detetive que se pergunta sobre formas paralisadas e crimes fantásticos até um desesperado amante à procura da mente de seu objeto/sujeito de desejo, parece certo que o sucesso (i.e., o fim do mistério) parece encontrar-se com alguma forma de meta e atingir esta meta é um passo para a felicidade, ou se não, para alguma espécie de verdade.

Por outro lado, fatos são pontes para abismos, e na mesma proporção em que a ação sempre revela novos caminhos, estes trazem consigo mais problemas. Não nego que tudo o que digo pode soar estranho, esquisito e desnecessário, mas pense (você que não existe e me lê) que trato do problema, à luz da dificuldade, do obstáculo como um grande “o que fazer” que reluz e tilinta na cabeça de quem pensa demais.

Entrar em mistérios, desvendar segredos, há nisso um conjunto de possibilidades que podem ser pacificadoras ou terríveis. A partir destes ingressos, pode-se apaziguar expectativas negativas ou alimentá-las, desenvolver angústias, obsessões ou até dar ensejo a uma nova história.

A história do mistério pode ser mesmo um vórtice que nos traga, nos destrói, nos comove e, queira Deus, nos liberte.

“A Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. Retirada daqui. 

84. Qual a história da glória?

E diante do passo que caminha meio torto

não há quem não saiba,

quem desate a figura de um tempo que já

não se atém a si, em si, por nós

Amém, quem vem e grita

como um sino iluminado

o galo que nos comove

e nos faz dizer

Até quando a gente passa e grita

e desiste e caminha e prossegue

até que ponto se consagra

não se tem mais medo

Aquele que cai

que sobra, ele sobrou

ao que se pode começar

de novo, sempre há de se poder

Vencer é uma nova forma de inverter

o futuro.